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Será que o Brasil merece os políticos que têm?

Essa é a grande pergunta que devemos nos fazer nesse momento!

POR HERVAL SAMPAIO JÚNIOR 

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Herval Sampaio Júnior é juiz de Direito, diretor do Fórum Silveira Martins de Mossoró-RN

Sei que a resposta que darei não agradará a ninguém, contudo, direi o que penso, sem receio de nada, mesmo ciente das críticas que virão, desta feita não somente dos políticos, pois a população, em sua maioria, não gostará de ouvir a realidade.

Mas, ciente do meu papel de cidadão, não posso me furtar em dizer o que penso, especialmente quando objetivando despertar uma consciência coletiva que, quase sempre, somente vem com o choque das ideias contrapostas.

O momento é de muita tristeza e, sinceramente, não pensei que chegássemos a esse ponto. Não adianta querer culpar somente os políticos pela patente crise ética que estamos vivendo e, por conseguinte a própria banalização da roubalheira que se vê de “cabo a rabo” como se diz em todos os setores da vida pública em nosso país.

É oportuno que de plano se registre que tal situação de longe pode ser atribuída somente aos nossos políticos, sendo óbvio que por muito tempo escondemos por debaixo do tapete a poeira da corrupção e da inversão ética dos valores de um homem público e a própria concepção da palavra política, banalizando tudo isso ao ponto de há muito tempo nossos políticos terem se esquecido do principal papel de um político, qual seja, servir ao bem comum do povo.

“O político é eleito para servir ao povo que o elegeu, não para ser servido!!”
Herval Sampaio

Ou seja, não se pode buscar na política nada, repito, nada de interesse pessoal, além dos próprios benefícios do cargo, que sinceramente são discutíveis pela quantidade exagerada de privilégios que a maioria dos cargos políticos nesse país trazem, o que leva ao ponto de as pessoas quererem chegar ao poder, justamente pelo o que ele lhe beneficia, quando na realidade esse poder deveria ser tido tão somente como meio para realização das necessidades públicas.

O momento é muito difícil, contudo pode servir de processo, na acepção da palavra para que possamos depurar de uma vez por todas essa triste realidade indiscutível que passamos em nosso país durante muitos anos, principalmente no processo eleitoral (Triste realidade da politicagem brasileira: uma verdade que precisa ser enfrentada com rigor e firmeza e Triste realidade da politicagem brasileira II: uma verdade que precisa ser enfrentada com rigor e firmeza).

Não temos a pretensão de achar que mesmo com todo esse cenário e a partir do processo de depuração, que hora estamos defendendo, se possa acabar totalmente com a corrupção, pois é impossível que isso ocorra. Contudo, cremos piamente que podemos pelo menos inverter o cenário atual para que aquilo que é indiscutivelmente regra geral passe a ser exceção.

Nesse texto não podemos por óbvio generalizar e também não podemos atingir nenhum dos políticos que tiveram seus nomes atingidos nos últimos escândalos, principalmente na semana passada, porém, é indiscutível que precisamos responder à pergunta que não quer calar:

Nós, povo brasileiro merecemos os políticos que temos?

Digo, sem receio, em que pese respeitar, desde já, posições em contrário, que merecemos sim os políticos que temos. Não só porque fomos nós que os colocamos em seus cargos, mas, também, pela certeza de que esses políticos tão somente retratam a essência de nossa sociedade. Ou melhor, a nossa própria essência, corrupta por natureza, em que buscando sempre os nossos interesses egoístas, esquecemos sempre do bem comum que devia trilhar nossas condutas.

Nos pequenos gestos, já dizemos o que somos e para que e a quem servimos, sendo patente que o povo brasileiro, por sua grande maioria, não preserva os valores básicos e culturais necessários de uma sociedade para que possa cobrar de seus políticos a mesma postura e talvez por isso a gente veja no cenário atual a total apatia do povo brasileiro com tantos escândalos, escândalos estes que se renovam de tempo a tempo, e infelizmente demonstram a mesma apatia, como se o povo achasse normal ou até mesmo compactuasse com tudo isso.

Os pequenos exemplos dados em junho de 2013 e até mesmo esse ano, por duas vezes, não foram e nem são suficientes para que os próprios políticos reconheçam que suas ações, regra geral, estão totalmente erradas e o mais importante, que passem a mudar.

E não dizemos isso como discurso vago!

Pode-se ver claramente que os políticos não nos ouviram e isso restou comprovado no trato com que os mesmos tiveram com a reforma política ainda em andamento, que sinceramente chamem de tudo menos de reforma, pois não se toca em nenhum momento em qualquer aspecto substancial que venha mesmo que de longe a combater ao que chamamos de estrutura do poder pelo poder (A reforma que não reforma).

Como entendemos que os escândalos atuais e passados demonstram a origem de toda a corrupção, qual seja, a patente influência do poder econômico, do poder político e do poder midiático em todo o processo eleitoral, fazendo com que poucas empresas e pessoas dominem na essência todo o processo eleitoral e elegendo evidentemente quem não tem qualquer compromisso, repito, qualquer compromisso, com os desejos mínimos de um povo tão sofrido e que não tem os seus direitos assegurados há bastante tempo em nossa Constituição.

Sabe o por quê?

Digo: porque o financiamento empresarial é um investimento pesado que aufere lucros inimagináveis no mercado e que cobra dos políticos uma fatura que ele, pessoalmente, não paga nada, sobrando para o dinheiro público bancar tudo isso como estamos vendo atordoados.

Infelizmente, a maioria esmagadora dos políticos descumpre a constituição, descumpre as leis, descumpre os valores mínimos éticos, e tudo isso somado faz com que se tenha o poder e o dinheiro, como meta principal de suas ações, não se vendo, em momento algum, de todo esse processo, qualquer possibilidade de efetiva punição dos políticos, pelo menos nesse momento promiscuo de campanha e prestação de contas ().

Daí porque, não temos a menor dúvida, de que suas excelências, com certeza, continuarão a praticar tais atos, pois já perceberam que o povo brasileiro, pode até não concordar, mas não conseguem se expressar e, principalmente, agir para combater tais desmandos.

Estamos vendo nesse atual momento a renovação dos mandatos de alguns políticos, outrora formalmente condenados pela prática de improbidade de uso do dinheiro público pela influência do poder econômico em suas campanhas, levando-se a crer que o resultado de tudo o que ocorreu não serviu de lição alguma. Pelo contrário, deve ter servido de incentivo para que outros políticos e os mesmos continuassem a agir desse modo, o modus operandi que se diz de ação dos políticos brasileiros vem se repetindo com a desfaçatez sem precedentes.

E porque que não se vê qualquer mudança?

Repito, porque talvez nós somos claramente a reprodução desses mesmos políticos e nós quando me refiro é a maioria do povo brasileiro, com raras exceções de homens públicos não só na política, incluindo o Legislativo e Executivo, como do Judiciário, que se surgem e tentam lutar bravamente para retirar da política tais corruptos, contudo, por incrível que pareça, o povo os coloca de volta, e os coloca sem qualquer cerimônia.

Temos vários exemplos recentes de políticos que foram pegos, como se diz, “com a boca na botija”, e foram punidos pelo Judiciário, até mesmo pelos seus próprios pares e, passada a punição, muitas vezes branda, voltaram ao cenário político pela mão, ou melhor, pelo voto do próprio povo. Ora, se o povo vê tudo isso que está acontecendo e ao invés de tomar atitudes, atitudes firmes, utilizando a sua maior arma que é o voto, age justamente em sentido contrário, avalizando tais condutas e colocando de volta, verdadeiros larápios da coisa pública, para administrar os recursos do erário.

Fica, desse jeito, óbvio, em nosso sentir, que tais políticos refletem a realidade de nossa sociedade, daí porque com muita tristeza, eu respondo mais uma vez, sem nenhuma tergiversação, que o Brasil merece sim os políticos que tem.

E esse triste quadro somente mudará, acredito, se houver uma mudança comportamental radical, repito, radical, na compreensão de todos esses fenômenos, de modo que daqui por diante possamos com a nossa maior arma, que é o voto, mudar tal realidade e nesse momento cobrar das autoridades competentes, o verdadeiro processo de depuração ética, da política como um todo, envolvendo membros de qualquer poder.

Tenho esperança de que as coisas efetivamente possam vir a mudar. E se por acaso não ocorrer tal mudança brusca, haverá tão somente mais um escândalo, como aqueles que vimos num passado bem recente, dois, já bem recentemente. E, com certeza, diante do cenário de intrigas pessoais totalmente desregradas dos objetivos institucionais, só estamos esperando o próximo escândalo, ou melhor, os próximos escândalos e mais uma vez, continuaremos com muito discurso e poucas ações, como é da praxe das autoridades e do povo brasileiro.

Sei que serei mal compreendido com esse pequeno texto. Prefiro, contudo ser, do que ser no futuro, de algum modo ser criticado por não ter lutado, por não ter me indignado, como há muito tempo e venho dizendo, com tudo isso e lutando pessoalmente e não como juiz para expurgar na maior quantidade possível todo e qualquer tipo de corrupção, pois só assim teremos políticos que estejam em total consonância com a mudança comportamental, que o povo brasileiro de uma vez por todas precisa passar.

Não será fácil, mas não tenho duvida alguma que é possível sim!!

Porque quando nos tocarmos de que todo o problema reside em nós mesmos e em nosso comportamento nas urnas e deixarmos de transferir tal responsabilidade para tais políticos (Analfabetos Políticos!!), os nossos filhos e netos, terão a esperança de ver um Brasil bem melhor, do que a tristeza que estamos vendo nesse momento difícil de total inversão dos valores básicos de um país que formalmente quer ser enquadrado como de primeiro mundo e nunca o será enquanto não agir firme no combate a corrupção.

Desta feita, podemos agir de modo imediato e mediato. Primeiro, cobrando nesse momento a efetiva apuração e punição de todos os envolvidos nos escândalos de desvio de dinheiro público, doa a quem doer, indo mais uma vez, às ruas e ao Congresso Nacional fazer a devida pressão para que desta feita se faça a tão sonhada depuração em nossa política e depois já nas próximas eleições, usar a nossa maior arma contra tudo isso que é o voto consciente e totalmente desatrelado de qualquer vantagem individual.

Sem essas duas posições firmes, continuaremos nesse estado ou até mesmo bem pior do que isso, pois como dito, quando mais se esperava uma posição firme dessa reforma politica tanto no campo constitucional quanto infraconstitucional, a par de todos esses escândalos, os nossos políticos, com todo respeito, com a maior “cara de pau” mantiveram e sofisticaram o financiamento empresarial, o que demonstra que eles querem continuar sendo pau mandados, não do povo, mas sim, das poucas empresas que descaradamente roubam o dinheiro público e o divide com os políticos corruptos, com a certeza de que nada vai lhes acontecer.

Dentro desse cenário, não existe outra resposta à pergunta feita no início, senão a certeza de que nós merecemos “sim” os políticos que temos. Agora, se vamos continuar com eles, aí são outros “quinhentos”.

Como venho bradando há muito tempo em vários textos, palestras, aulas, entrevistas, etc, tudo só depende de nós e se vamos mudar essa triste realidade só o futuro nos dirá, já que o passado e o presente demonstram uma apatia jamais vista de um povo que tanto sofre como se resigna facilmente e o pior ver o erro e insiste no mesmo com a esperança sabe-se lá do que!!

*HERVAL SAMPAIO JUNIOR é Mestre em Direito Constitucional, Juiz de Direito e Juiz Eleitoral no Estado do Rio Grande do Norte e escritor renomado nacionalmente, com obras publicadas em diversas áreas do direito, inclusive direito eleitoral

O texto acima é de responsabilidade exclusiva do autor e as opiniões não refletem necessariamente a opinião dos editores do site www.novoeleitoral.com”

Claques teleguiadas e outros esbirros vermelhos deram um grande exemplo de deseducação na Câmara Municipal de Mossoró

Que até puxadores de bandeirolas surradas tenham a palavra facultada é algo inerente ao ambiente democrático

Todavia, esses grupelhos não podem silenciar vereador no próprio plenário da Casa Legislativa, como se tentou nesta quinta-feira, 23

O Brasil está mudando, todavia, uns poucos gatos pingados, desavisados, insistem em fingir que não estão vendo.

Talvez, por vergonha do mar de lama espargido do desgoverno do PT, essa turma, agora, tenta se impor empunhando bandeirolas desbotadas de meros esbirros petistas com o PSOL e o PSTU.

Um exemplo dessa gente defasada, sem rumo e sem nenhum prumo, foi legado durante a sessão extraordinária da Câmara Municipal de Mossoró, realizada nesta quinta-feira, 23.

Gente que transvestida de defensores da educação, protagonizou um deprimente espetáculo de maus modos. De deseducação, mesmo.

Grupo de pretensos guardiões dos direitos coletivos, que apenas externaram interesses subalternos.

Desavisados, que como se estivessem em alguma ditadura, tentaram – e conseguiram por alguns instantes -, transformar a Câmara Municipal de Mossoró em um palco de desaforos que impuseram através do grito.

O acinte e desrespeito estrelado por quem, das galerias cobrava respeito, ficou patente em repetidas oportunidades.

Todavia, em um destes lamentáveis momentos, a turma bancada pelo dinheiro do contribuinte, usurpado por partidos e gente que banca claques de aluguel, foi surpreendida pela sempre aguerrida e destemida vereadora, Izabel Montenegro.

Em alto e bom som, Izabel exigiu respeito e avisou que na Casa do Povo, o direito de palavra deve ser facultado a todos. Inclusive, aos representantes legítimos do povo, que são os 21 vereadores, e não apenas aos militantes vermelhos e seus esbirros.

Que no plenário da Câmara Municipal de Mossoró – como nas demais Casas Legislativas, o bom debate de idéias, de preferência entre governistas e opositores independentes – não confundir com claques teleguiadas -, de quando em quando e de preferência, em altos decibéis, torna o ambiente convidativo, nós aqui concordamos. Em número, gênero e grau.

Porém, o que não se deve e, aqui não não concordamos é que que puxadores de bandeirolas, bancados com dinheiro originário do contribuinte, ao som de bordões não menos ultrapassados, pretendam impor as vontades de quem lhes patrocina durante sessões plenárias ordinárias ou extraordinárias.

Que até mesmo as claques de aluguel tenham direito à palavra, no Legislativo, isso é algo inerente ao ambiente democrático em que vivemos.

No entanto, o que daqui não aplaudimos e, muito menos concordamos, é que estes mesmos grupelhos, queiram, na gritaria, impedir que até mesmo – e, principalmente – os vereadores, exerçam o papel para o qual foram eleitos.

Em alguns casos, apenas por discordarem de seus discursos ensaiados, decorados e bem pagos.

 

Se não responde sequer pelas contas do seu governo, pelo que responde o presidente da República?

Artigo

POR RICARDO NOBLAT

A estar certo Luís Inácio Adams, o advogado-geral da União, o presidente da República não responde por nada – salvo pelas coisas boas, naturalmente.

 

Ao entregar, ontem, as explicações pedidas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) sobre as contas do governo de 2014, Adams disse com a cara mais limpa do mundo:

– Aprovando ou rejeitando [as contas] não tem base a ideia de um impeachment. Você não cassa um mandado baseado nas contas do governo. A questão que está sendo avaliada aqui não é a conduta individual de cada agente e, particularmente, da presidente. São as contas governamentais. Não cabe responsabilizar Dilma.

Dito de outra maneira: mesmo que a prestação de contas do governo contenha graves irregularidades e acabe rejeitada pelo TCU e, mais adiante, pelo Congresso, ninguém individualmente pode ser responsabilizado por isso.

Credite-se a culpa, se for o caso, ao “governo”, essa entidade sem rosto.

Por meio de manobras fiscais, o governo usou bancos públicos, como a Caixa, para pagar benefícios sociais de programas do tipo Bolsa Família e seguro-desemprego.

Procedeu assim quando faltavam recursos no Tesouro Nacional.

O governo alega que “as pedaladas” não representam operações de crédito, mas sim um tipo de prestação de serviços.

O TCU não engole essa – e nem ninguém com o mínimo de conhecimento sobre o que de fato se passou.

Foi, sim uma operação de crédito. E a Lei de Responsabilidade Fiscal proíbe que bancos públicos financiem o governo federal.

O governo abusa do cinismo quando argumenta que os governos de Fernando Henrique Cardoso fizeram a mesma coisa, bem como os governos de 17 Estados.

Quer dizer: se os outros fizeram e não foram punidos por que logo eu serei?

Reconhece essa desculpa? Os governos do PT usaram e abusaram dela.

O Brasil sempre foi tolerante com a corrupção. O fato de estar deixando de ser absolve, por exemplo, todos os que foram pegos pela Operação Lava Jato roubando a Petrobras?

A propósito: se a presidente da República não responde pelas contas do seu governo como quer o Advogado-Geral da União, responderá pelo quê?

O esquema do mensalão foi comandado de dentro do Palácio do Planalto no primeiro governo Lula – mas Lula escapou porque disse que não sabia.

Dilma manda diretamente na Petrobras desde o momento em que assumiu o cargo de Ministra das Minas e Energia no primeiro governo Lula – mas ela nada teve a ver com o que ocorreu por lá. É o que diz.

Bom emprego, esse, de presidente.

Como? Lula quer conversar com FHC para brecar o impeachment de Dilma?

Mas será que ele está em posição de ser um condestável da República?

POR REINALDO AZEVEDO

Oh, será o “Dia da Marmota”, o filme? Dez anos depois, estamos de volta àquele 2005, quando os companheiros, então, procuraram tucanos, para falar das inconveniências do impeachment de Lula? No ano seguinte, o petista venceu a reeleição. Em 2010, o PT venceu de novo. E, em 2014, outra vez, tendo sempre como uma de suas bandeiras a suposta herança maldita dos… tucanos!  Reportagem da Folha desta quinta informa que o ex-presidente petista encarregou amigos comuns, seus e de FHC, de marcar uma conversa com o ex-presidente tucano para debater a crise e… ora vejam!, conter o impeachment de Dilma. Logo, tudo indica, o Babalorixá de Banânia vê mesmo no horizonte o impedimento da presidente. Sabem como é… Quem tem PT tem medo.

Oficialmente, o Instituto Lula nega essa movimentação e diz que o petista nem mesmo tem a intenção de conversar com FHC. Informa, no entanto, a reportagem que, em off, nos bastidores, a abordagem existe mesmo. Ouvido pelo jornal, respondeu o tucano o seguinte: “O presidente Lula tem meus telefones e não precisa de intermediários. Se desejar discutir objetivamente temas como a reforma política, sabe que estou disposto a contribuir democraticamente. Basta haver uma agenda clara e de conhecimento público”.

Boa resposta. Aliás, o encontro poderia se dar, deixem-me ver, no Itaquerão, com portões e microfones abertos e telão. Aí a gente poderia saber, afinal, que diabos Lula gostaria de conversar com FHC. Seria de todo conveniente, claro!, que os tucanos não caíssem nessa cascata. A melhor relação que um partido de oposição pode manter com o PT é a distância. O espaço institucional da convivência é o Congresso Nacional, certo?

Esse papo de encontro é um dos desdobramentos da tese bocó da crise institucional que estaria em curso e que poderia se tornar aguda com o eventual impeachment de Dilma. Diga-se de novo:
a) não há crise institucional nenhuma; há uma crise política, uma crise econômica e uma crise de confiança;
b) o eventual impeachment de Dilma seria seguido por um suspiro de alívio de praticamente dois terços da população; o outro terço compreenderia.

Nota antes que continue: não, eu não acho que se deva impichar um presidente só porque a maioria quer. Há leis no país. Ocorre que considero que leis que levam ao impedimento foram violadas. Que tal deixar que o sistema jurídico e as regras da democracia se encarreguem do assunto? Lula julga estar no Afeganistão? Acha que uma crise pode ser debelada com o encontro de senhores da guerra e chefes de tribos, que decidirão, então, os rumos da nação?

Basta ler a reportagem de Daniela Lima, Marina Dias e Ricardo Balthazar para concluir, ademais, que os petistas estão é tentando levar a sua própria confusão para dentro do PSDB, listando tucanos que seriam e que não seriam “conversáveis”.

Dilma ganhou uma eleição há nove meses com uma determinada pauta. E governa há sete. Se não pode cumprir o que prometeu e se aderiu a todas as práticas que demonizou durante a campanha — algumas delas corretas, diga-se —, ela que se vire. Afinal, é presidente da República e tem responsabilidade política.

Houvesse realmente o risco de o país ir à breca com a sua eventual saída, ok. Então que se conversasse. A política também serve ao propósito de evitar o mal maior. Ocorre que o mal maior é a presidente ficar, não sair, como sabem hoje amplos setores da sociedade. O episódio patético do superávit primário dá conta da encalacrada em que se meteu o governo. A pergunta que requer uma resposta mais urgente não é o que vai acontecer com o Brasil se Dilma sair, mas o que vai acontecer se ela ficar. Um governo que reduz a previsão de superávit primário em 86,36% depois de cinco meses está absolutamente perdido.

Sei que os petistas têm dificuldades para entender como funciona a democracia. Mas eu lembro a eles. Nos regimes democráticos, a oposição também é eleita pelo povo. Eleita, no caso, para vigiar o governo e cobrar que se comporte segundo as regras.

Lula quer conversar? Ora, se Rodrigo Janot lesse direito a Constituição, as pedaladas fiscais dadas por Dilma no primeiro mandato já teriam motivado uma denúncia à Câmara, não é mesmo? Afinal, elas contribuíram para a mistificação dos números. Em 2014, coube a Aécio lembrar os rigores da crise. Dilma anunciava, como é mesmo?, uma nova etapa do desenvolvimento brasileiro.

Eu estou querendo fazer terceiro turno? Eu não! Quero apenas que essa gente responda por sua obra. Já disse e repito: as pedalas fiscais também foram uma forma mais do que escancarada de crime eleitoral. Que se cumpram as leis. Sem papo furado!

De resto, acho bom que Lula comece a se preocupar mais consigo mesmo do que com Dilma. Ele não está em posição de negociar nada. A depender do que venha por aí, ele vai ter de pedir arrego, sim, mas é em seu próprio benefício.

Assim falou “RA”, “o blogueiro falastrão”, segundo a gentil denominação com que Lula me brindou. E eu me orgulho muito disso.

Cunha faz bem em reagir. E a questão que não quer calar:

Por que Janot não pediu, até agora, ao menos abertura de inquérito contra Dilma?

POR REINALDO AZEVEDO 

Em entrevista coletiva, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) anunciou o seu rompimento pessoal com o governo. Afirmou que, nem por isso, deixará de tomar decisões imparciais na presidência da Câmara. Cunha acusa o Planalto de estar por trás da nova versão apresentada por Júlio Camargo, da Toyo Setal, que, em novo depoimento ao juiz Sérgio Moro, afirmou lhe ter pagado U$ 5 milhões em propina. Em depoimentos anteriores, Camargo havia negado o pagamento. Segundo o deputado, a nova versão decorre da pressão feita por Rodrigo Janot, procurador-geral da República, que estaria agindo sob o comando do Planalto. Se é sob o comando, não sei. Que age de acordo com o gosto, ah, isso sim!

O PMDB emitiu uma nota curta a respeito, objetiva a mais não poder:
“A manifestação de hoje do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, é a expressão de uma posição pessoal, que se respeita pela tradição democrática do PMDB. Entretanto, a Presidência do PMDB esclarece que toda e qualquer decisão partidária só pode ser tomada após consulta às instâncias decisórias do partido: comissão executiva nacional, conselho político e diretório nacional.”

Na entrevista, Cunha deixou claro que não está cobrando posição nenhuma do partido agora, mas que, no congresso da legenda, que ocorrerá em setembro, vai defender o rompimento oficial da sigla com o governo, mesmo o vice percebendo ao PMDB. Ele lembrou, de forma apropriada, que Michel Temer é “indemissível”. Bem, é mesmo. Temer também foi eleito, embora muita gente se esqueça disso.

Há uma questão que segue sem resposta. Por que Rodrigo Janot não pediu até agora nem mesmo abertura de inquérito contra Lula e Dilma — ele pode pedir, sim, abertura de inquérito contra a presidente. Ora, tenham a santa paciência! Há algo de errado quando uma operação como essa tem como alvos principais Eduardo Cunha e Renan Calheiros. É a dupla que comanda a Petrobras há 13 anos? O presidente da Câmara, claro, citou essa estranheza.

Embora Cunha não tenha acusado Sérgio Moro de conluio com o governo, sobrou uma crítica justa ao juiz: “Ele violou o procedimento de foro privilegiado. O juiz acha que o Supremo se mudou para Curitiba”. E violou mesmo.

Moro já ouviu dois depoimentos, em inquéritos que integram a Operação Lava Jato, em que os principais alvos são Renan Calheiros, acusado por Paulo Roberto Costa, na segunda, e o próprio Cunha, acusado por Júlio Camargo, nesta quinta. A desculpa heterodoxa é a de que, nesses dois casos, tanto um como outro não falavam no âmbito da delação premiada. É evidente que se trata de uma forma sub-reptícia de desrespeitar a Constituição.

Não sei se Cunha é culpado ou inocente — alguns coleguinhas meus, pelo visto, já sabem ser ele culpado, dada a forma como o tratam. Quem o acusa agora já disse o contrário antes. O que sei, e isto é inegável, é que, de fato, na prática, a Procuradoria Geral da República ainda não pediu abertura de inquérito para investigar Dilma, Aloizio Mercadante, Edinho Silva ou Lula. Nesse caso, aquele procedimento aberto pelo Ministério Público do Distrito Federal é só uma lateralidade em relação à questão principal.

O presidente da Câmara faz bem em reagir. Dez entre dez jornalistas sabem que os governistas viviam anunciando para breve o fim de Cunha. Sei não… Parece que se está diante do começo de uma coisa nova

Quem é a “Dona Fantasmagórica” que nunca aprendeu a fazer um penteado com uma quenga?

É o babado da hora em salões frequentados por algumas dondocas descompromissadas com quem não é do metiê – não confundir com ateliê

POR VELHO APACHE ANTENADO 

Nos salões frequentados por algumas dondocas da mossoroen (cidade) o tititi da hora é o que está sendo definido como devaneio de uma certa e destrambelhada figura que, depois de tentar, sem sucesso, aprender a fazer um penteado com uma quenga – é o tipo de corte de cabelo em que o barbeiro pega uma quenga de coco e coloca sobre a cabeça do cliente, para em seguida raspar ao redor da “curcuruta” -, agora deseja fazer carreira noutra esfera.

Todavia, porém, entretanto, no entanto, com sua incompetência esférica, “Dona Fantasmagórica”, estaria tentando compensar seu despreparo inconteste e comprovado, atuando de forma antiprofissional e antiética, à base de fofoca, picuinha e de mal caratismo.

Por isso, uma queridinha daquelas que perde a amiga, mas, não a piada, descobriu que para descabelar a pranchinha da “Dona Fantasmagórica”, não se faz necessário nenhum redemoinho mais potente.

Outra frequentadora de um famoso ateliê aconselha a que a figura ridícula desça do Luís XV, pelo simples fato de que, de tão destrambelhada que é, esse tipo de modelo, indumentária não lhe cai bem, afinal, segundo o babado, a mesma não amarra nem a chuteira da Madame de Ventadour.

O buxixo é forte, a despeito de se reconhecer que em face da insignificância de “Dona Fantasmagórica”, no primeiro peteleco que tomar, quem deve mesmo ser descabelado é o “Senhor dos Anéis” da referida. 

Para se defender, PP ameaça dizer que Dilma sabia de esquema na Petrobras

A casa continua caindo

POR GERSON CAMAROTTI 

Diante dos mandados de busca e apreensão que colocaram em situação extremamente delicada dois caciques do PP – o presidente da legenda, senador Ciro Nogueira (PI), e o líder da bancada, deputado Dudu da Fonte (PE) – integrantes da cúpula do partido ensaiam uma reação que pode deixar a presidente Dilma Rousseff numa saia justa.

Nos bastidores, dirigentes do PP fecharam um discurso de defesa da atual cúpula do partido que, na interpretação deles, pode expor uma contradição da versão apresentada por Dilma até agora, diante dos fatos da Operação Lava Jato.

Ao Blog, três dirigentes do partido apresentaram a versão de que a presidente sabia do esquema de corrupção na Petrobras. E, segundo eles, argumentava que era uma herança do governo Lula.

A presidente sempre negou que tivesse conhecimento de episódios de corrupção na estatal. “Não tinha informação de malfeito, porque, se eu tivesse, teria tomado medida”, afirmou em setembro do ano passado.Em junho deste ano, disse que é “impossível” que se aponte ligação entre ela e o escândalo na Petrobras.

De acordo com esses dirigentes, Dilma chegou a falar isso com todas as letras para o então ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, logo depois que ele tomou posse, no início de 2012.

Segundo esse relato, na ocasião, a bancada do PP queria manter Paulo Roberto Costa na Diretoria de Abastecimento da Petrobras. Mas, de acordo com os dirigentes do PP, Dilma reagiu: “Não vou manter o Paulo Roberto Costa. Ele está envolvido num esquema pesado na Petrobras. Ele está fora”, teria dito a presidente.

Paulo Roberto Costa caiu logo depois da conversa de Dilma com o ex-ministro Aguinaldo Ribeiro. “Essa coisa da Dilma dizer que não sabia de nada não se sustenta. Os fatos mostram que ela sabia do esquema. E que só depois de um bom tempo no governo é que fez as mudanças na Petrobras”, observou um dirigente do PP.

A atual cúpula do partido argumenta que assumiu o controle do PP no mesmo momento em que Paulo Roberto Costa caiu. Apesar desse argumento, os nomes que integram o atual comando do PP foram citados pelos delatores da Operação Lava Jato como beneficiários do esquema. Na primeira lista apresentada por Rodrigo Janot (PGR), aceita pelo Supremo Tribunal Federal, o PP aparece com o maior número de parlamentares investigados.

Fonte: www.g1.com.br

Marcha das Mulheres do RN se pronunciam sobre chacina em Itajá

NOTA OFICIAL 

A Marcha Mundial das Mulheres no Rio Grande do Norte vem a público manifestar sua indignação e repúdio à execução de cinco mulheres na madrugada desta quarta-feira (15), em uma casa de prostituição no município potiguar de Itajá, Região do vale do Açú. A MMM também se solidariza com famílias das vítimas.

Não restam dúvidas de que se trata de um crime de feminicídio. É evidente que este caso não se trata de uma violência como outra qualquer, mas motivada principalmente pela condição de mulher das vítimas. Nós mulheres estamos constantemente expostas a muitas violências, doméstica, patrimonial, sexista, psicológica. E as mulheres em condição de prostituição são ainda mais expostas a violências em seu dia a dia.

A prostituição é parte constitutiva desse sistema capitalista patriarcal e se configura como uma das principais formas de opressão das mulheres pela manutenção da supremacia masculina, na qual o corpo e a vida das mulheres são tratados como mercadorias. A prostituição é a mais extrema relação de poder entre os sexos. Dizemos não a exploração sexual das mulheres.

Nenhuma mulher é menos vítima por estar em condição de prostituição, ao contrário, são duplamente vítimas: da exploração do patriarcado e, por fim, da violência que ceifa suas vidas todos os dias.

Exigimos que os culpados por essa barbárie sejam identificados e punidos. E que se tenha com urgência políticas públicas para as mulheres em situação de prostituição e ao mesmo tempo que o Estado exerça seu papel para promover o bem-estar das cidadãs, para que as mulheres consigam viver sem violência, capazes de exercer sua autonomia.

 

Marcha Mundial das Mulheres no Rio Grande do Norte.

Dilma: “Eu não vou pagar pela merda dos outros”

“Isso é uma agenda nacional, Cardozo, e você fodeu a minha viagem”, declarou Dilma, usando termos inadequados para uma presidente da República 

POR RICARDO NOBLAT

Dilma Rousseff, Aloizio Mercadante e José Eduardo Cardozo  (Foto: Isaac Amorim / AG)

Dilma Rousseff, Aloizio Mercadante e José Eduardo Cardozo (Foto: Isaac Amorim / AG)

A cena descrita pelas repórteres Natuza Nery e Marina Dias, da Folha de S. Paulo, ocorreu na sexta-feira dia 26 de junho, na biblioteca do Palácio da Alvorada.

Estavam ali a presidente Dilma Rousseff e os ministros Aloizio Mercadante, da Casa Civil, Edinho Silva, da Comunicação Social, e José Eduardo Cardozo, da Justiça. E também Giles Azevedo, assessor especial de Dilma.

A presidente os convocara para discutir reportagem da VEJA onde o empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC, havia dito que doara dinheiro sujo para a campanha de Dilma no ano passado.

Às vésperas de embarcar para se reunir com o presidente Barack Obama nos Estados Unidos, Dilma estava furiosa.

Segundo o relato publicado, hoje, pela Folha, “agitada, andando em círculos e gesticulando muito”, Dilma olhou para seus auxiliares e bradou, indignada: “Não sou eu quem vai pagar por isso. Quem fez que pague”. E insistiu:

– Eu não vou pagar pela merda dos outros.

Lá pelas tantas, a culpa acabou caindo nas costas do ministro da Justiça.

– Você não poderia ter pedido ao Teori [Zavascki] para aguardar quatro ou cinco dias para homologar a delação? – perguntou Dilma.

Ela se referia ao ministro responsável no Supremo Tribunal Federal (STF) pelos processos da Operação Lava Jato.

Foi ele que homologou a delação premiada de Pessoa.

– Isso é uma agenda nacional, Cardozo, e você fodeu a minha viagem.

O PT não se conforma de Cardozo não controlar a Polícia Federal. E, pelo visto, Dilma gostaria que ele também controlasse a agenda do ministro Zavascki.

No início da semana passada, Cardozo intermediou um encontro às escondidas na cidade do Porto, em Portugal, entre Dilma e Ricardo Lewandowski, presidente do STF.

Os três discutiram o aumento dos servidores do Judiciário, a Operação Lava Jato e o que o STF poderá fazer para impedir o eventual sucesso de um pedido de impeachment de Dilma.

Fonte: Blog do Noblat

Tudo é epílogo depois que a Dilma e o Lewandowski reuniram-se em Portugal 99

Artigo

POR JOSIAS DE SOUZA

O que aconteceu na última terça-feira, dia 7 de julho, durante a passagem de Dilma Rousseff pelo Hotel Sheraton, na cidade portuguesa do Porto? Pode-se afirmar com 100% de certeza que lá, na elegante hospedaria, a presidente se encontrou com o comandante do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, e com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Pode-se declarar também, sem margem para dúvidas, que os três tentaram manter a reunião em segredo. Por último, é imperioso constatar que essa conversa, por disparatada, jamais deveria ter ocorrido.

Desde que o primeiro delator da Lava Jato começou a soar, a plateia esperava pelo sinal de que o fim, ou pelo menos a encrenca terminal que empurraria a cena para o caos, estivesse próximo. Aguardava-se o fato que justificasse o uso do ponto de exclamação que se escuta quando as pessoas dizem “não é possível!” Pois bem, o sinal foi dado. Esse episódio do encontro que se pretendia clandestino de Dilma com Lewandowski e Cardozo vai ficar, no enredo da tragicomédia nacional, como um marco da derrocada. De agora em diante, tudo é epílogo.

Depois de Paulo Roberto Costa, o Paulinho, já moveram os lábios outros 17 delatores. O mais recente foi Ricardo Pessoa, dono da construtora UTC e coordenador do cartel que roubou pelo menos R$ 19 bilhões dos cofres da Petrobras. Antes dessa delação, Dilma silenciava sobre a Lava Jato. Era problema do PT. Por mal dos pecados, os depoimentos de Pessoa empurraram para dentro da caixa registradora da última campanha da presidente R$ 7,5 milhões roubados na Petrobras. E madame teve de dizer algo: “Não respeito delator”.

Dentro de dois dias, a Justiça Eleitoral tomará o depoimento de Ricardo Pessoa. E os R$ 7,5 milhões podem ser enfiados nas páginas de um processo em que o Tribunal Superior Eleitoral perscruta a prestação de contas da campanha de Dilma. O julgamento está previsto para setembro. Em tese, o veredicto pode levar à destituição de Dilma e do vice-presidente Michel Temer. Dessa decisão caberia um recurso para o STF de Lewandowski.

Outro assunto que pode morrer na Suprema Corte é o parecer que o Tribunal de Contas da União emitirá em agosto sobre a contabilidade do governo Dilma referente a 2014. São grandes, muitos grandes, enormes as chances de o TCU rejeitar a escrituração do governo. Algo que, no limite, poderia levar à abertura no Congresso de um processo de afastamento de Dilma pela prática de crime de responsabilidade.

Foi contra esse pano de fundo que Dilma conversou com Lewandowski e Cardozo em Portugal. Descobertos pelo repórter Gerson Camarotti, eles tentam emplacar uma fantasia que não nexo. Nessa versão, difundida pelo ministro da Justiça, sua chefe e o presidente do Supremo conversaram sobre o projeto que concedeu aos servidores do Judiciário reajuste salarial médio de 59,5%.

Veja bem: Dilma e Lewandowski trabalham em prédios vizinhos, um defronte do outro, com a Praça dos Três Poderes de permeio. Poderiam conversar sobre salários de servidores numa audiência oficial, em Brasília. Mas querem convencer a plateia de que, tendo cruzado o Atlântico, alguma razão inadiável levou-os a dialogar sobre a folha do Judiciário num furtivo encontro noturno, no faustoso hotel de Portugal. A esse ponto chegamos: o absurdo adquiriu uma doce, persuasiva, admirável naturalidade.

O brasileiro é um sujeito de poucos espantos. Horroriza-se pouco, é verdade. Mas convém não cutucar a paciência alheia com vara tão curta. Dilma estava a caminho da Rússia. Aterrissou em Portugal a pretexto de reabastecer o jato presidencial. Em vez de Lisboa, preferiu o Porto. Lewandowski e Cardozo estavam na cidade de Coimbra. Participavam de um seminário de nome sugestivo: “O Direito em Tempos de Incertezas.”

Na versão oficial, Lewandowski soube por Cardozo que Dilma faria escala em Portugal. E pediu ao ministro da Justiça que intermediasse o encontro com a presidente. Em Brasília, o mandachuva do STF poderia cruzar a praça a pé para chegar à sala de Dilma. Em Portugal, teve que vencer os cerca de 120 quilômetros que separam Coimbra do Porto. E querem que ninguém faça a concessão de uma surpresa. É certo que o brasileiro baniu dos seus hábitos o ponto de exclamação. Mas há limites para o cinismo.

Em agosto de 2007, quando a denúncia da Procuradoria da República sobre o escândalo do mensalão foi convertida pelo STF em ação penal, Lewandowski foi o ministro que mais divergiu do voto do relator Joaquim Barbosa. Foram 12 divergências. Discordou, por exemplo, do acolhimento da denúncia contra José Dirceu e José Genoino por formação de quadrilha.

A despeito das diferenças, o Supremo mandou ao banco dos réus todos os acusados. Terminada a sessão, Lewandowski foi jantar com amigos numa casa de repastos chamada Expand Wine Store. Em dado momento, soou-lhe o celular. Era o irmão, Marcelo Lewandowski.

O ministro levantou-se da mesa e foi para o jardim externo do restaurante. Para azar de Lewandowski, a repórter Vera Magalhães, acomodada em mesa próxima,ouviu algumas de suas frases. Coisas assim: “A imprensa acuou o Supremo. […] Todo mundo votou com a faca no pescoço.” Ou assim: “A tendência era amaciar para o Dirceu”.

Lewandowski insinuou que, no seu caso, o amaciamento não traria prejuízos à imagem: “Para mim não ficou tão mal, todo mundo sabe que eu sou independente”. Deu a entender que, não fosse pela “faca no pescoço”, poderia ter divergido muito mais: “Não tenha dúvida. Eu estava tinindo nos cascos.”

Convertidas em manchete, as frases de Lewandowski produziram constrangimento no STF. Presidente do tribunal na época, Ellen Gracie, hoje aposentada, divulgou uma nota. Nela, escreveu:

“O Supremo Tribunal Federal – que não permite nem tolera que pressões externas interfiram em suas decisões – vem reafirmar o que testemunham sua longa história e a opinião pública nacional, que são a dignidade da Corte, a honorabilidade de seus ministros e a absoluta independência e transparência dos seus julgamentos. Os fatos, sobretudo os mais recentes, falam por si e dispensam maiores explicações.”

Dos oito ministros indicados por Lula, Lewandowski foi o primeiro cujo nome seguiu para o Diário Oficial depois da explosão do mensalão. O escândalo ganhou o noticiário em maio de 2005, quando Roberto Jefferson jogou o esquema no ventilador numa entrevista à repórter Renata Lo Prete. E Lewandowski chegou ao tribunal em fevereiro de 2006.

Professor com mestrado e doutorado na USP, Lewandowski era desembargador em São Paulo quando Lula o escolheu. Formara-se na Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, berço sindical e político de Lula. A família Silva não lhe era estranha. A mãe do ministro fora vizinha de Marisa Letícia, a mulher de Lula. No julgamento do mensalão, mostrou-se solidário sempre que topou com petistas graúdos.

Considerando-se o cargo em que está investido no momento, seria recomendável que Lewandowski narrasse aos colegas de toga e ao país, em sessão pública, transmitida pela TV Jutiça, o que sucedeu entre as quatro paredes do Sheraton, na cidade do Porto, na noite da última terça-feira, dia 7 de julho. Seu silêncio pode levar as almas mais desconfiadas a supor Lewandowski continua “tinindo nos cascos”.

Quanto ao resto dos brasileiros, entre eles os deputados que ouvirão José Eduardo Cardozo na CPI da Petrobras na próxima quarta-feira, ai dos que ousarem encarar os fatos sem horror. Sobretudo depois que ficou entendido que, a partir de agora, tudo é epílogo. Pode ser um epílogo curto ou longo. Só não pode ser medíocre.

Fonte: www.uol.com.br