Em discurso na ONU, Bolsonaro distorce dados sobre meio ambiente, economia e defende tratamento sem eficácia contra Covid-19

Presidente brasileiro é desmentido e vira piada nas redes sociais

Foto: (Timothy A. Clary/Pool via REUTERS)

Em discurso nesta terça-feira (21) na abertura da 76ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, o presidente Jair Bolsonaro usou dados distorcidos para exaltar a política ambiental e o desempenho da economia brasileira durante o seu governo, e defendeu a adoção do chamado tratamento precoce contra a Covid-19, cuja ineficácia já foi cientificamente comprovada.

No discurso, Bolsonaro também:

  • se posicionou contra o chamado passaporte sanitário, que confere benefícios às pessoas que tenham se vacinado contra a Covid-19;
  • afirmou que não há corrupção em seu governo;
  • citou dados fora de contexto para dizer que o desmatamento na Amazônia diminuiu;
  • disse que as manifestações de 7 de Setembro foram “as maiores da história”, o que não corresponde à verdade ;
  • disse que o desempenho econômico do Brasil neste ano é um dos melhores entre os países emergentes.

Bolsonaro, que foi o primeiro a discursar, disse não entender por que “muitos países, juntamente com a grande mídia” se opõem ao tratamento precoce contra a doença.

“Desde o início da pandemia, apoiamos a autonomia do médico na busca do tratamento precoce, seguindo recomendação do nosso Conselho Federal de Medicina. Eu mesmo fui um desses que fez tratamento inicial. Respeitamos a relação médico-paciente na decisão da medicação a ser utilizada e no seu uso ‘off-label’ [fora do que prevê a bula]. Não entendemos por que muitos países, juntamente com grande parte da mídia, se colocaram contra o tratamento inicial. A história e a ciência saberão responsabilizar a todos”, disse Bolsonaro.

O tratamento precoce, por meio do uso de medicamentos como cloroquina e ivermectina, vem sendo defendido pelo presidente desde o ano passado. No entanto, estudos científicos já comprovaram a ineficácia desses remédios contra a Covid. Além disso:

Vacinação

Bolsonaro também disse defender a vacinação contra a Covid-19 e afirmou que, até novembro, todos os brasileiros que quiserem poderão se imunizar.

Entretanto, ele se posicionou contra restrições adotadas por países contra pessoas que se recusam a tomar a vacina.

“Até novembro, todos que escolheram ser vacinados no Brasil, serão atendidos. Apoiamos a vacinação, contudo o nosso governo tem se posicionado contrário ao passaporte sanitário ou a qualquer obrigação relacionada a vacina”, disse Bolsonaro.

Essa é a terceira vez que Bolsonaro discursa como presidente do Brasil – o representante do país é encarregado de abrir oficialmente a fala dos presidentes mundiais desde 1947.

Corrupção

O presidente também disse que o Brasil “mudou” após a sua chegada ao Planalto e afirmou que não há corrupção em seu governo

“O Brasil mudou, e muito, depois que assumimos o governo em janeiro de 2019. Estamos há 2 anos e 8 meses sem qualquer caso concreto de corrupção”.

Apesar da declaração do presidente, autoridades encontraram indícios de corrupção no caso do contrato para a compra da vacina Covaxin. O governo, diante da suspeitas de irregularidades, cancelou o contrato.

O contrato da Covaxin se tornou alvo da CPI da Covid e do Ministério Público Federal.

Um grupo de juristas coordenado pelo ex-ministro da Justiça Miguel Reale Júnior entregou recentemente à CPI da Covid um estudo sobre os possíveis crimes cometidos por Bolsonaro durante a pandemia. O grupo citou o caso Covaxin e um possível crime de prevaricação, que fica caracterizada quando um funcionário público dificulta ou atrasa alguma obrigação de seu cargo.

Atos de 7 de Setembro

Bolsonaro também citou as manifestações em favor do governo que ocorreram no 7 de Setembro, quando, em ameça golpista ao Supremo Tribunal Federal (STF), ele afirmou que não cumpriria mais decisões do ministro Alexandre de Moraes.

O presidente disse ainda que “no último 7 de Setembro, data de nossa Independência, milhões de brasileiros, de forma pacífica e patriótica, foram às ruas, na maior manifestação de nossa história”

Os atos de 7 de Setembro não foram os maiores já registrados no país. Apesar de não haver um balanço nacional, as imagens registradas no dia revelam uma manifestação muito menor que as registradas contra a presidente Dilma Rousseff, por exemplo.

Meio ambiente

Bolsonaro dedicou parte do discurso à preservação da Amazônica, ponto em que o governo é criticado dentro e fora do país em razão da política ambiental e dos altos índices de desmatamento e queimadas.

O presidente afirmou que “na Amazônia, tivemos uma redução de 32% do desmatamento no mês de agosto, quando comparado a agosto do ano anterior”.

Essa redução percentual é verdadeira: em agosto de 2020, houve 1.359 km2 da Amazônia Legal sob alerta de desmatamento, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Em agosto deste ano, foram 918 km2 – a queda corresponde a 32%.

Os dados, entretanto, não traduzem toda a realidade ambiental e ignoram o contexto de avanço da destruição sob a gestão do atual governo.

Em 2021, por exemplo, a Amazônia teve o primeiro semestre com a maior área sob alerta de desmate em 6 anos.

Apesar de ter havido uma queda de 5% no desmatamento da Amazônia entre as temporadas de 2019-20 e 2020-21, as áreas sob alerta nos dois períodos ainda são as maiores desde 2015, quando o Inpe começou a medi-las.

O presidente disse ainda que 84% da floresta está “intacta” e convidou os presentes na assembleia a visitar a floresta.

Entretanto, de acordo com o Inpe, o desmatamento acumulado hoje na Amazônia corresponde a mais de 800 mil km2. A área original da floresta monitorada por satélite nos nove Estados da Amazônia Legal é de 3.994.454 km2. Ou seja, foram desmatados cerca de 20% da floresta, permanecendo 80% de pé.”

No discurso, Bolsonaro também questionou, em tom retórico, “qual país do mundo tem uma política de preservação ambiental como a nossa?”.

Outros biomas também têm tido perdas com a política ambiental brasileira: no Cerrado, por exemplo, houve a maior área sob alerta de desmatamento para agosto desde 2018. O número de focos de incêndio – considerados os números de janeiro a agosto – foi o maior desde 2012.

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